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O silêncio e o trovão

Edna e Matheus, ambos com 60 anos e 25 de casamento, chegaram ao consultório com a queixa de não manterem mais relações sexuais. Não obstante a idade ou a ausência de doenças, perguntei se o amor havia acabado.

— Não, doutor… Mas já faz uns cinco anos que ele não me procura mais.

Direcionei o olhar a Matheus e perguntei:

— Por quê?

— Porque não tenho vontade. Ela grita comigo o tempo todo. Preciso me afastar para não ensurdecer.

Voltei-me então para Edna:

— E a senhora, o que acha?

— Ele não fala.

— E por que a senhora grita?

— Porque me sinto abusada… Já ajudei a cuidar do filho dele e agora da mãe. Estou cansada.

Matheus, retrucando, comentou:

— Meu filho nunca morou conosco. E minha mãe fica uma vez por ano, duas semanas em nossa casa. Ela sempre se sente abusada… São histórias do passado dela que deixam o copo sempre transbordando.

Se há algo que aprendi, foi a não pedir calma a quem está nervoso, nem esperar consenso em brigas de casal.

Enquanto Edna gritava e falava sem parar, como uma bomba que explode e destrói tudo ao redor, Matheus se calava. E, não menos beligerante, como uma lança silenciosa, perfurava o coração da cônjuge.

Como em O Feitiço de Áquila, dia e noite, silêncio e trovão já não se misturavam. No filme, os apaixonados, enfeitiçados por um bispo ciumento, não conseguiam mais se tocar — assim como Edna e Matheus.

De dia, Isabeau (Edna, para nós) se transforma em um falcão: o grito.
À noite, Navarre (Matheus) se transforma em um lobo negro: quieto e observador.

“Sempre juntos, mas eternamente separados.”

Durante o dia ele a protegia na forma de ave. À noite, ela cuidava dele em forma humana, enquanto ele era a fera. Esse cuidar me aliviava, pois refletia a permanência do amor.

No filme, eles só conseguem se ver em suas formas humanas por um breve instante, no amanhecer e no entardecer — momentos de ternura e mansidão que alimentavam a esperança de um reencontro definitivo.

O bispo cruel, observando a corrupção pelo poder do lobo (retratado na necessidade de organização dos espaços de Matheus) e o fanatismo do falcão (retratado na repetição sistemática das falas de Edna), forjava a armadura que impedia o movimento do casal.

A solução da história de Edward Khmara acontece durante o eclipse: um momento que não é dia nem noite, em que falcão e lobo — animais predadores — se encontram na forma humana, na consciência moral. É ali que o feitiço pode ser quebrado, diante do bispo maligno.

Da mesma forma, Edna e Matheus precisavam encontrar seu eclipse: o movimento que um corpo faz na direção da sombra do outro.

No caso de Edna, o falcão, o trovão precisava baixar o tom.
Na sombra de Matheus, o lobo negro, o silêncio precisava aprender a falar.

Só assim macho e fêmea da mesma espécie poderiam, enfim, se reencontrar.

Lealdade

Cacá, 16 anos, Rio de Janeiro. Quarenta graus. Dá entrada no pronto-socorro do Hospital do Andaraí com queimaduras nas costas — um local incomum para um acidente doméstico.

A história vem à tona por um familiar: o garoto foi punido numa chapa de ferro usada para queimar lixo da Comlurb. O motivo? Participar de arrastões nas praias cariocas.

— É isso, dotô. O tráfico pune quem prejudica os negócios na Cidade Maravilhosa. Mais imprensa gera mais polícia, menos turista, menos dinheiro.

O tráfico, as máfias, certos grupos políticos e sistemas corruptos exigem lealdade.
Mas lealdade exige sigilo. E onde há segredo, há mentira.

Quando a lealdade não é consigo mesmo, ela se torna um esforço constante contra a verdade. Não é sinônimo de amizade. É dívida não paga. Não é amor — é obrigação, apego, medo.

Seis meses depois, uma senhorinha aparece no consultório, Bíblia na mão, agradecendo pelo atendimento ao neto. Curioso, perguntei se ele ainda enfrentava problemas com o grupo da comunidade.

A resposta me surpreendeu:
— Agora ele é trabalhador. Conheceu a verdade em Jesus.

Perguntei se os “manos” não o perseguiam mais.
— Não. Depois da punição e da deslealdade ao grupo, eles simplesmente se desinteressaram.

É um exemplo extremo, eu sei. Mas revela uma expectativa comum nas relações humanas: entre casais, amigos e colegas de trabalho. A lealdade mal compreendida é fonte de mágoas, agressões e rupturas.

Nos afastamos de quem gostamos por nos sentirmos traídos. Estigmatizamos quem pensa diferente. Trocamos a dissonância de opiniões pelo pecado da exclusão. Não perguntamos o que motivou a “deslealdade”, porque é menos doloroso acusar em grupo do que sentar, sozinho, no banco dos réus.

Fidelidade é outra coisa.
Fidelidade é a fé que devemos a Deus.

Pois Ele — que age como verbo — é também substantivo: a própria Verdade, que só pode ser encontrada dentro de nós.

O mosquito e a abelhinha

Era uma vez um insignificante mosquito. Passou a vida se desvencilhando de tapas e raquetadas e, quando teve a oportunidade de comer, deu de cara com uma parede de cetim.
Era uma vez uma abelhinha. Passou a vida trabalhando pra colmeia na esperança de um dia ver sua mãe, a rainha. Um dia, em defesa de sua gente, perdeu seu ferrão.
Tanto o mosquito quanto a abelhinha tiveram uma vida simples e difícil. O mosquito, sem um propósito que não fosse o da própria sobrevivência, foi esquecido. Já a abelhinha, em defesa de sua comunidade, recebeu as devidas homenagens e foi lembrada por todos.
Nós, os humanos, tomamos várias atitudes durante nossas vidas que atendem a nossa sobrevivência. Mas alguns tomam atitudes pensando nos outros. Esses últimos, sem dúvida, serão aqueles lembrados e alçados como exemplo. E como numa plataforma com muitos seguidores, permanecerá através de seu exemplo.

Para minha neta Bianca que ainda vai chegar… E já apelidada de bee.

Dedé e Zangão

Amigos de “copo, de viagem, de bagunça e de perrengue…” há mais de 40 anos. De mesma estatura física e intelectual, componentes da turma do Elefante Branco, campeões de zoação, esses nanicos foram separados pelo Whatsapp.

De certo que já ouviram falar desse tipo de problema na pandemia, na política ou mesmo no futebol. Essa ferramenta sem dúvida aproxima e separam pessoas. Por ser sujeitas a má interpretação por esquecer o tom em detrimento das palavras. Fazer parecer que estamos a sós no banheiro de nossas casas. Esbravejando emoções e crendices sublimam o devido controle, o outro.
Acredito que não seja somente um problema de comunicação que promove o distanciamento. Por traz se esconde algo mais antigo e indelével a todos nós:

– Se esse Mengo é favela… Logo favelado você é.

– Quem vota no Lula é ladrão!

– Bolsotários!


Será que podemos fazer uma ligação tão direta assim? Afinal se todos sabem que fumar mata todo fumante deveria ser burro ou suicida. Esse pensamento binário de ser isso ou aquilo em nada ajuda a entendermos um problema que não tem relação com sucessos ou insucessos. Escolhas são uma medida resumo, uma síntese que normalmente fazemos em cima de variáveis que nos encantam. Não são baseadas em resultados nem futurologia. Aliás é o pequeno que entra em nossos corações. O filho mais indefeso é o que nos faz tremular nossas bandeiras. E isso não nos torna mais burros, Franciscanos ou empoderados. Identificar-se é pertencer e esse sentimento nos dá direcionamento, significado a nossas vidas. As escolhas de criança ou adolescência como times de futebol ou grupos políticos caminham conosco até a morte, pois fazem parte de nossa personalidade a despeito de ser vencedores ou perdedores. O estrelato ou fracasso não muda nosso eu, apenas distrai. E isso não nos transforma em líderes ou canalhas.

– Eu não falo mais com aquele fdp…

Como estruturamos nossa persona? Como construímos nosso existir? Como nos apresentamos aos grupos, comunidades? Essa é a base da discórdia mas tambem é o elo, como macho e fêmea ao mundo em que vivemos.

A boa amizade, o bom casamento não é aquele em que haja semelhança absoluta entre os pares, pois dessa forma nada teríamos a somar. Cumplicidade está mais próximo da tolerância do que dá afinidade. Em troca ainda ganhamos uma boa rizada… E não há nada melhor que isso…
Dedé e Zangão continuam sem se falar…

O Emocionador, o Gerente de Felicidade e o vício da Performance

Julia 32 anos me procurou dizendo: – “não aguento mais…”
…acordo as 5:30h para as 7h estar na academia a final os gordos também são excluídos de tudo. Ao chegar já ouço uns gritos:
-“ vamos lá acorda, força, quer moleza faz meditação…”

Esse personagem é o emocionador: figura possessiva que a academia contratou para fazer as pessoas “vibrarem” ao fazer seus exercícios. Como se fosse um ditador tudo em nome da melhor performance… Depois de uma hora de gritos e exaustão tomo um banho rápido e saio correndo para o “trampo” que começa às 9h.

Gerente de telemarketing diz já ter se acostumado com as reclamações, mas que o complicado é a reunião diária que tem com o tal “gerente de felicidade” que a empresa contratou para aliviar o estresse dos funcionários:

Depois de um “papo cabeça” que me pergunta todo dia como está minha vida e se estou com algum problema pessoal e obviamente se estou feliz resolve parar o serviço dos meus funcionários para exercitá-los… Sou cobrada por metas, meu pessoal tem que dar uma produtividade que está no limite de sua entrada e saída da mesa de atendimento e a lista de dispensas e reclamações só cresce com a rotina enfadonha a que somos submetidas diariamente.

A despeito dos benefícios que uma ginástica laboral possa trazer ou mesmo uma atividade física mais intensa e uma escuta mais delicada o vício da performance tomou conta de nossa sociedade. É um mal por ser exagerado. A velocidade que as empresas estão obrigando seus empregados a desempenhar suas funções e o mecanicismo com que os mesmos tem de desempenhá-las para obter esse melhor resultado estão nos “matando” .

Ao invés de tentarem um antídoto ao mal que o criaramos não seria mais adequado outra estratégia? Metas mais adequadas que contabilizem idas e vindas ao banheiro ou mesmo um cafezinho, avaliações de qualidade no atendimento que muitas vezes pressupõe ouvir mais as pessoas o que demanda tempo, uma administração mais participativa dos funcionários que demande mais autonomia e criatividade e linhas de produção paralelas capazes de suplementar ausências por uma maior flexibilidade nos horários poderiam transformar essas empresas em um lugar saudável. Não preciso nem dizer da economia que seria gerada com melhor eficiência, menos pedidos de demissões, menos treinamento de novatos, menores custos com planos de saúde e menos processos trabalhistas.

Se não tirar nossos empregos talvez a inteligência artificial venha nos salvar de alguns desses problemas, mas não da miopia criada pela medicina de que sofrimento não é doença. O que é verdade se olharmos em estrito senso. Mas o que ocorre quando dizemos isso é que só passamos a cuidar das pessoas quando já é tarde demais, já doentes. Um sofrimento estendido por demasiado tempo leva a doença. Enquanto não achamos o lugar certo para desempenhar nossas melhores habilidades precisamos encontrar soluções terapêuticas mais eficazes. O conflito com a autoridade do emocionador o medo do “palhaço” do gerente de felicidade que a remetia as essas figuras esdrúxulas temidas em sua infância indicaram seu melhor medicamento homeopático.

O Elo perdido

” Você não tem nada”.
“Passa essa pomadinha que melhora”.
“Você tem que passar com um especialista”.
“Preciso de uns exames para confirmar…”


Essa frases normalmente usadas para dizer “não sei” não dizem respeito ao carácter dos profissionais ou mesmo ao desejo de procrastinação, mas fundamentalmente revelam uma deficiência de conhecimento sobre a saúde. Esculpidos em universidades que transformam queixas em diagnósticos ou em nada, como aquele brinquedo em que só conseguimos introduzir objetos na caixa que tenham o mesmo formato, esses diagnósticos só contemplam 30% do sofrimento da humanidade deixando de fora da assistência outros setenta. Somos adestrados a pensarmos fotograficamente quando deveríamos fazermos um filme da história clínica de nossos pacientes. Conhecermos suas vidas e personalidades desde a infância até a vida adulta, conversarmos com pediatras e esses com médicos de adulto e buscarmos afinidades e dissonância entre sintomas e personas.


O fato é que nos frustramos e frustramos a quem nos paga e nos procura. A própria divisão cultural em sistemas afunila nossas mentes em especialidades esquecendo que somos um só e que as vezes uma dor no peito não é só um problema de coração. Que um câncer pode se manifestar das mais diferentes formas possíveis. Que exames não revelam mais que o tempo gasto numa história clínica bem apurada, e o que é mais importante: entre o sofrer e o nada existem muitos tons, graus de adoecimento, que podem ser subtraídos com a intervenção adequada. A chamadas MTCI – medicina tradicional complementar e integradora – entre elas a homeopatia pode ter um impacto na saúde e bem estar das pessoas bem superior ao que temos conseguido até o momento. Um caminhão de dinheiro inesgotável para uma medicina que atende aos muito doentes e negligência os que começam a adoecer.

A fogueira de João

Vinte e quatro de junho foi quando adentrou em minha sala João 54 anos com a seguinte frase:

“Dr sexo pra mim é saudade…”

Casado, dois filhos, empresário “bem sucedido” sua única expectativa era poder transar com sua mulher… Mas seu corpo já não atendia à pedidos…

“Querer eu quero mas está mais pra “barro do que pra tijolo”.
Acima do peso com uma circunferência abdominal de 112 cm fui logo perguntando:

Existe felicidade no empreendedorismo?
Sem pestanejar respondeu que no outro dia deu um almoço e que um jovem rapaz, filho de uma funcionária, apontou para um funcionário bem apessoado perguntando à sua mãe se ele seria o chefe. Rindo e rapidamente voltando-se pra mim me apresentou ao garoto. Respondi ao menino: – “o chefe é sempre o careca, gordinho e estressado”.


Colesterol, triglicerídeos e glicemia elevados e pressão 140/ 90 mmHg foi fácil fechar o diagnóstico em síndrome metabólica.

Então doutor, o que faço com meu casamento? Sem dar a mínima atenção ao diagnóstico continuou: – Amo minha mulher, já tomei até o comprimidinho azul que melhora, mas pareço um “robocop” pois não mexe com minha vontade… kkkkk…


Bom humor é fundamental mas não resolve os problemas de ansiedade que afetam tantos casamentos nos dias de hoje. O mundo já não aceita mais a traição ou a “escapadinha” o que de certa forma limita as perspectivas de auto-conhecimento. Confunde felicidade com prazer o que aumentam as frustrações cotidianas e delega demais aos profissionais da saúde as suas verdades o que os coloca numa roda giratória interminável de conflitos.


Mas nesse caso achou o caminho correto, pois o que as pessoas não sabem é que 50% dos acometidos da síndrome metabólica também perdem o libido e para o homem isso é mais difícil de contornar. Largar seu ganha-pão também não seria solução como propunha sua esposa. Afinal sua empresa era como um filho que criou desde pequenininha.


A solução enfim seria tratar o problema básico de ansiedade e fazê-lo entender que perder peso seria fundamental. Primeiro, atividade física deveria ser prioridade em sua vida, não saia de casa sem ela! Falar em dieta para alguém ansioso com a instabilidade político econômica que ainda vivemos só funciona de modo parcial com direito a falhas no planejamento. Tentar manter seus metabólitos e pressão controlados artificialmente com medicamentos só funcionaria a curto prazo. Estamos falando de travar uma guerra, não uma batalha. Foi então que introduzi a homeopatia… O despertar sua consciência e direcionamento de suas atitudes para o saudável era a gota que faltava.

Prof Doutor Edgard Vilhena

Bulldog e seu latido infernal

Bulldog 37 anos, masculino, conhecido como Bull entre os amigos. Na verdade um apelido, pois seu nome verdadeiro não queria informar. Sua identidade era a descrição de sua fisionomia. Face que mais parecia uma lua, pernas finas, obesidade abdominal e estrias violáceas por todo o abdômen. Internado pela segunda vez, pois na primeira se evadiu, por uma dor lombar que agora o impedia de sustentar seu próprio corpo. A enfermeira me pediu para vê-lo pois teve um escorregão no banheiro batendo com seu tórax na pia, já medicado para essa dor por curiosidade fui conversar com o mesmo…


Descobri que há 7 anos usava diariamente um potente corticosteróide para gota. O que parecia um erro médico, pois essa droga não estaria indicado para essa moléstia ficou claro que Bull mostrava-se uma pessoa hipersensível a dor uma vez que apontava para a região da costela, onde havia batido na pia do banheiro, mas que ao exame clínico não havia sequer uma vermelhidão local. Estava claro para mim que todo seu quadro era advindo do uso indiscriminado daquela medicação uma vez que além das descrições físicas já mencionadas a rarefação óssea que também é uma complicação desse uso havia promovido uma fratura de vertebra levando-o a esse quadro de imobilidade e perda da sensibilidade nos membros inferiores.


A questão aqui não é discutir competências, mas sim o “jogo de empurra” que se tornou a saúde por diversas razões. Afinal foram as dores que lhe trouxeram a procurar ajuda primeiramente atendido por um clínico que o medicou para essa algia que logo encaminhou-o ao ortopedista que não seria também a pessoa adequada a orientar o caso uma vez que apesar da fratura tratava-se de uma síndrome de Cushing secundária ao medicamento usado indiscriminadamente por anos. Na verdade o profissional de saúde mais apto a tratar e diagnosticar seria o endocrinologista que por sua vez é uma especialidade escassa ao atendimento do SUS (sistema único de saúde). Ainda assim “desmamá-lo” desse medicamento não seria tarefa fácil uma vez que era uma pessoa com baixíssima tolerância a dor e que estava disposto a fazer qualquer negócio para não sentir… As vezes Deus ouve nossas preces e no caso de Bull retirou a sensibilidade de suas pernas. Parece óbvio que o tratamento concomitante com um psicólogo seria fundamental também porque sua doença se misturava com sua identidade ao querer ser chamado de Bull…


A saúde definitivamente não é para amadores é cara pois envolve diversos profissionais, médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos, terapeutas ocupacionais, carregadores para sua locomoção e motoristas e necessita de uma gestão profissional com administradores e advogados para lidar com as frustrações de pacientes e familiares por não verem suas expectativas atendidas, não entenderem as limitações dos serviços e por permanecerem com suas dores… Se quisermos resultados efetivos… Caso contrário continuaremos a fingir que nos pagam, fingiremos que tratamos e nossos pacientes fingirão que foram acolhidos entregando novamente a Deus seu destino. Eita povo resiliente!

Saudade

É fácil entendermos o que é saudade, difícil é lidarmos com ela… Temos saudade de nosso filho que foi tentar a vida fora de nosso país, de nossa esposa que foi visitar os parentes em outro estado, saudade até da capacidade física que já tivemos, das brincadeiras que tínhamos com nossos amigos e irmão ou mesmo dos beijos que roubamos. Temos também saudades de quem perdemos e não vai mais voltar e daqueles que ainda vivos e embora próximos, distantes daquele sentimento que nos unia…


MJC, 55 anos, solteira filha mais velha em família de quatro irmãos chegou à consulta médica com dificuldade de andar. Sua queixa me pareceu exagerada pois ao exame físico se encontrava em bom estado geral. Boa aparência, culta e sofisticada me chamou a atenção o fato de nunca ter constituído família uma vez que falava carinhosamente da sua. Dona de uns olhos azuis cintilantes referia já ter tido namorados, mas que deu sempre prioridade aos seus irmãos e mãe uma vez que tinha perdido seu pai em acidente aos 6 anos de idade.


A saudade sempre dói mas ela só se torna um problema de fato quando não conseguimos mais caminhar devido a essa dor. Difícil é para os médicos se posicionar quando não temos um diagnóstico a oferecer. Complicado também é quando sem um preparo psicológico essa pessoa compartilha seu sofrimento.


– A propósito Dona… Quando começou essa dificuldade para andar?
Um segundo de silêncio e a verdade veio à tona submersa em um rio de lágrimas… Quando minha mãe faleceu há 5 anos atrás…


A saudade que adoece é essa que não conseguimos superar, nos paralisa, nos isola e destrói nossos sentimentos mais generosos para com a vida. Culpava Deus, seus irmãos e o trabalho pela ausência de sua amada mãe. A depressão aparente tem várias faces: raiva, frieza e melancolia para citar algumas. Mas é atrás dessas manifestações que se esconde o verdadeiro mal…


MJC 55 anos durante muito tempo se acomodou ao colo daquela que a protegia, cumplice de seu poder junto aos seus irmãos e fiadora de sua afetividade. MJC decidiu não correr riscos “desnecessários” na vida. Desconfiada de casamentos, de propostas de trabalho que recebeu em outros lugares se manteve obediente aos valores e regras matriarcais esquecendo-se daquilo que seria o seu propósito, a sua vida e seus desafios.


Um dos grandes enigmas atuais da medicina são as doenças crônicas oriundas de hábitos mal gerenciados, aqueles cujo foco se localiza em um só lugar tornando-se vícios. É como gostar e desejar um só tipo de alimento e retirar toda sua energia de “fast food” esquecendo-se que também nos alimentamos de relacionamentos, da natureza e daquilo que construímos. Tirar MJC do buraco foi um trabalho da homeopatia, mas fazê-la caminhar só poderia com suas próprias pernas.

Setembro Amarelo e saúde mental

Amanda 19 anos chega ao consultório acompanhando sua mãe. Tatuada pelo corpo todo indaguei:

Menina! Parece uma revista em quadrinhos viva!… kkk
Ao iniciar a consulta da mãe percebi que a presença vigilante da filha não passava de um controle premeditado sobre o que a mãe iria dizer à consulta. Aproveitando-me de um momento em que a garota foi ao banheiro disse-me a mãe rapidamente.

O motivo dessa consulta é sobre essa guria. Passou no vestibular para cursar medicina no exterior e depois de 2 anos decidiu voltar desse jeito…
Apontando para as tatuagens, aproveitei o retorno da garota e perguntei:

Amanda não doeu pra fazer isso tudo?

Doe, mas é uma dor que me acalma…
E porque voltou?
Minha curiosidade foi maior que o tempo para a mãe.

Foi muito bullying e muita pressão era prova quase toda semana…
Cinquenta e cinco por cento da geração Z sofre de algum tipo de ansiedade. A ansiedade é o mal que a aceleração do tempo promove em nossas crianças que vem um mundo mudando com uma velocidade difícil de acompanhar.

Conta ai Amanda, curiosidade de médico, o curso é muito difícil?

Até que eu estava indo bem, mas tinha que fazer um tatoo por semana pelo menos para aguentar.

Mas no rosto a dor não é muito grande?

Sim, mas só quando estou precisando muito, tinha umas espinhas aqui que de tanto cutucar ficou marcado, tive que fazer uma tatuagem para esconder.

O que é precisar muito?
Nesse momento a consulta da mãe era secundária…

Ah… Quando estava chateada me sentindo muito sozinha.
A necessidade, o isolamento e a abdicação das funções com o retorno a casa dos pais sinalizavam para o transtorno de escoriação da pele que dificilmente melhorará com conselhos, que era o que seus pais faziam de pior.
A doença de escoriação ou “skin picking”, é causada por “cutucar” a pele de modo recorrente, gerando lesões de pele que causam dor e deficiência funcional. Essa doença é estimada em aproximadamente 1,4% a 5,4% da população, com maior prevalência em mulheres. Além disso, encontrou-se associação com ansiedade, depressão e abuso de substâncias tóxicas. Apesar da importância desta patologia, menos de metade dos pacientes procuram tratamento, apenas 53% recebem um diagnóstico correto e 57% não melhoram após tratamento.
Amanda teve a sabedoria de reconhecer seus limites e retornar para casa. Sua personalidade forte e o não uso de drogas sinalizavam um bom prognóstico. Após pedir para ela se retirar por alguns minutos para manter a privacidade da mãe ouvimos algo muito comum nesses pacientes:

Dr ela adora me fazer sentir culpada não da ouvido pra tudo que ela diz não.

Pode deixar, exclamei!
Após explicar a mãe que esse transtorno pode se realimentar com sentimento de culpa e que o ideal seria atendê-la, mas que só faria por vontade da mesma, sugeri de início uma terapia cognitivo comportamental que poderia fazê-la perceber esses gatilhos emocionais que a levavam a se machucar, representado aqui pelas tatuagens. Pedi que a menina retornasse:

E aí Dr ela tem salvação? Com alguma ironia…

Todos nós temos Amanda… Respondi.
Depois de uma pausa a garota voltou-se para mim e disse:

Gostei desse Doc mãe, acho que vou passar com ele também, nem receita ele deu pra você!