Cacá, 16 anos, Rio de Janeiro. Quarenta graus. Dá entrada no pronto-socorro do Hospital do Andaraí com queimaduras nas costas — um local incomum para um acidente doméstico.
A história vem à tona por um familiar: o garoto foi punido numa chapa de ferro usada para queimar lixo da Comlurb. O motivo? Participar de arrastões nas praias cariocas.
— É isso, dotô. O tráfico pune quem prejudica os negócios na Cidade Maravilhosa. Mais imprensa gera mais polícia, menos turista, menos dinheiro.
O tráfico, as máfias, certos grupos políticos e sistemas corruptos exigem lealdade.
Mas lealdade exige sigilo. E onde há segredo, há mentira.
Quando a lealdade não é consigo mesmo, ela se torna um esforço constante contra a verdade. Não é sinônimo de amizade. É dívida não paga. Não é amor — é obrigação, apego, medo.
Seis meses depois, uma senhorinha aparece no consultório, Bíblia na mão, agradecendo pelo atendimento ao neto. Curioso, perguntei se ele ainda enfrentava problemas com o grupo da comunidade.
A resposta me surpreendeu:
— Agora ele é trabalhador. Conheceu a verdade em Jesus.
Perguntei se os “manos” não o perseguiam mais.
— Não. Depois da punição e da deslealdade ao grupo, eles simplesmente se desinteressaram.
É um exemplo extremo, eu sei. Mas revela uma expectativa comum nas relações humanas: entre casais, amigos e colegas de trabalho. A lealdade mal compreendida é fonte de mágoas, agressões e rupturas.
Nos afastamos de quem gostamos por nos sentirmos traídos. Estigmatizamos quem pensa diferente. Trocamos a dissonância de opiniões pelo pecado da exclusão. Não perguntamos o que motivou a “deslealdade”, porque é menos doloroso acusar em grupo do que sentar, sozinho, no banco dos réus.
Fidelidade é outra coisa.
Fidelidade é a fé que devemos a Deus.
Pois Ele — que age como verbo — é também substantivo: a própria Verdade, que só pode ser encontrada dentro de nós.
