Julia 32 anos me procurou dizendo: – “não aguento mais…”
…acordo as 5:30h para as 7h estar na academia a final os gordos também são excluídos de tudo. Ao chegar já ouço uns gritos:
-“ vamos lá acorda, força, quer moleza faz meditação…”
Esse personagem é o emocionador: figura possessiva que a academia contratou para fazer as pessoas “vibrarem” ao fazer seus exercícios. Como se fosse um ditador tudo em nome da melhor performance… Depois de uma hora de gritos e exaustão tomo um banho rápido e saio correndo para o “trampo” que começa às 9h.
Gerente de telemarketing diz já ter se acostumado com as reclamações, mas que o complicado é a reunião diária que tem com o tal “gerente de felicidade” que a empresa contratou para aliviar o estresse dos funcionários:
Depois de um “papo cabeça” que me pergunta todo dia como está minha vida e se estou com algum problema pessoal e obviamente se estou feliz resolve parar o serviço dos meus funcionários para exercitá-los… Sou cobrada por metas, meu pessoal tem que dar uma produtividade que está no limite de sua entrada e saída da mesa de atendimento e a lista de dispensas e reclamações só cresce com a rotina enfadonha a que somos submetidas diariamente.
A despeito dos benefícios que uma ginástica laboral possa trazer ou mesmo uma atividade física mais intensa e uma escuta mais delicada o vício da performance tomou conta de nossa sociedade. É um mal por ser exagerado. A velocidade que as empresas estão obrigando seus empregados a desempenhar suas funções e o mecanicismo com que os mesmos tem de desempenhá-las para obter esse melhor resultado estão nos “matando” .
Ao invés de tentarem um antídoto ao mal que o criaramos não seria mais adequado outra estratégia? Metas mais adequadas que contabilizem idas e vindas ao banheiro ou mesmo um cafezinho, avaliações de qualidade no atendimento que muitas vezes pressupõe ouvir mais as pessoas o que demanda tempo, uma administração mais participativa dos funcionários que demande mais autonomia e criatividade e linhas de produção paralelas capazes de suplementar ausências por uma maior flexibilidade nos horários poderiam transformar essas empresas em um lugar saudável. Não preciso nem dizer da economia que seria gerada com melhor eficiência, menos pedidos de demissões, menos treinamento de novatos, menores custos com planos de saúde e menos processos trabalhistas.
Se não tirar nossos empregos talvez a inteligência artificial venha nos salvar de alguns desses problemas, mas não da miopia criada pela medicina de que sofrimento não é doença. O que é verdade se olharmos em estrito senso. Mas o que ocorre quando dizemos isso é que só passamos a cuidar das pessoas quando já é tarde demais, já doentes. Um sofrimento estendido por demasiado tempo leva a doença. Enquanto não achamos o lugar certo para desempenhar nossas melhores habilidades precisamos encontrar soluções terapêuticas mais eficazes. O conflito com a autoridade do emocionador o medo do “palhaço” do gerente de felicidade que a remetia as essas figuras esdrúxulas temidas em sua infância indicaram seu melhor medicamento homeopático.
