O silêncio e o trovão

Edna e Matheus, ambos com 60 anos e 25 de casamento, chegaram ao consultório com a queixa de não manterem mais relações sexuais. Não obstante a idade ou a ausência de doenças, perguntei se o amor havia acabado.

— Não, doutor… Mas já faz uns cinco anos que ele não me procura mais.

Direcionei o olhar a Matheus e perguntei:

— Por quê?

— Porque não tenho vontade. Ela grita comigo o tempo todo. Preciso me afastar para não ensurdecer.

Voltei-me então para Edna:

— E a senhora, o que acha?

— Ele não fala.

— E por que a senhora grita?

— Porque me sinto abusada… Já ajudei a cuidar do filho dele e agora da mãe. Estou cansada.

Matheus, retrucando, comentou:

— Meu filho nunca morou conosco. E minha mãe fica uma vez por ano, duas semanas em nossa casa. Ela sempre se sente abusada… São histórias do passado dela que deixam o copo sempre transbordando.

Se há algo que aprendi, foi a não pedir calma a quem está nervoso, nem esperar consenso em brigas de casal.

Enquanto Edna gritava e falava sem parar, como uma bomba que explode e destrói tudo ao redor, Matheus se calava. E, não menos beligerante, como uma lança silenciosa, perfurava o coração da cônjuge.

Como em O Feitiço de Áquila, dia e noite, silêncio e trovão já não se misturavam. No filme, os apaixonados, enfeitiçados por um bispo ciumento, não conseguiam mais se tocar — assim como Edna e Matheus.

De dia, Isabeau (Edna, para nós) se transforma em um falcão: o grito.
À noite, Navarre (Matheus) se transforma em um lobo negro: quieto e observador.

“Sempre juntos, mas eternamente separados.”

Durante o dia ele a protegia na forma de ave. À noite, ela cuidava dele em forma humana, enquanto ele era a fera. Esse cuidar me aliviava, pois refletia a permanência do amor.

No filme, eles só conseguem se ver em suas formas humanas por um breve instante, no amanhecer e no entardecer — momentos de ternura e mansidão que alimentavam a esperança de um reencontro definitivo.

O bispo cruel, observando a corrupção pelo poder do lobo (retratado na necessidade de organização dos espaços de Matheus) e o fanatismo do falcão (retratado na repetição sistemática das falas de Edna), forjava a armadura que impedia o movimento do casal.

A solução da história de Edward Khmara acontece durante o eclipse: um momento que não é dia nem noite, em que falcão e lobo — animais predadores — se encontram na forma humana, na consciência moral. É ali que o feitiço pode ser quebrado, diante do bispo maligno.

Da mesma forma, Edna e Matheus precisavam encontrar seu eclipse: o movimento que um corpo faz na direção da sombra do outro.

No caso de Edna, o falcão, o trovão precisava baixar o tom.
Na sombra de Matheus, o lobo negro, o silêncio precisava aprender a falar.

Só assim macho e fêmea da mesma espécie poderiam, enfim, se reencontrar.