Bulldog e seu latido infernal

Bulldog 37 anos, masculino, conhecido como Bull entre os amigos. Na verdade um apelido, pois seu nome verdadeiro não queria informar. Sua identidade era a descrição de sua fisionomia. Face que mais parecia uma lua, pernas finas, obesidade abdominal e estrias violáceas por todo o abdômen. Internado pela segunda vez, pois na primeira se evadiu, por uma dor lombar que agora o impedia de sustentar seu próprio corpo. A enfermeira me pediu para vê-lo pois teve um escorregão no banheiro batendo com seu tórax na pia, já medicado para essa dor por curiosidade fui conversar com o mesmo…


Descobri que há 7 anos usava diariamente um potente corticosteróide para gota. O que parecia um erro médico, pois essa droga não estaria indicado para essa moléstia ficou claro que Bull mostrava-se uma pessoa hipersensível a dor uma vez que apontava para a região da costela, onde havia batido na pia do banheiro, mas que ao exame clínico não havia sequer uma vermelhidão local. Estava claro para mim que todo seu quadro era advindo do uso indiscriminado daquela medicação uma vez que além das descrições físicas já mencionadas a rarefação óssea que também é uma complicação desse uso havia promovido uma fratura de vertebra levando-o a esse quadro de imobilidade e perda da sensibilidade nos membros inferiores.


A questão aqui não é discutir competências, mas sim o “jogo de empurra” que se tornou a saúde por diversas razões. Afinal foram as dores que lhe trouxeram a procurar ajuda primeiramente atendido por um clínico que o medicou para essa algia que logo encaminhou-o ao ortopedista que não seria também a pessoa adequada a orientar o caso uma vez que apesar da fratura tratava-se de uma síndrome de Cushing secundária ao medicamento usado indiscriminadamente por anos. Na verdade o profissional de saúde mais apto a tratar e diagnosticar seria o endocrinologista que por sua vez é uma especialidade escassa ao atendimento do SUS (sistema único de saúde). Ainda assim “desmamá-lo” desse medicamento não seria tarefa fácil uma vez que era uma pessoa com baixíssima tolerância a dor e que estava disposto a fazer qualquer negócio para não sentir… As vezes Deus ouve nossas preces e no caso de Bull retirou a sensibilidade de suas pernas. Parece óbvio que o tratamento concomitante com um psicólogo seria fundamental também porque sua doença se misturava com sua identidade ao querer ser chamado de Bull…


A saúde definitivamente não é para amadores é cara pois envolve diversos profissionais, médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos, terapeutas ocupacionais, carregadores para sua locomoção e motoristas e necessita de uma gestão profissional com administradores e advogados para lidar com as frustrações de pacientes e familiares por não verem suas expectativas atendidas, não entenderem as limitações dos serviços e por permanecerem com suas dores… Se quisermos resultados efetivos… Caso contrário continuaremos a fingir que nos pagam, fingiremos que tratamos e nossos pacientes fingirão que foram acolhidos entregando novamente a Deus seu destino. Eita povo resiliente!

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